.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

17/06/2010

entulhei todo o entulho









entulhei todo o entulho que tinha entulhado nos neurónios pensadores. fiz uma trouxa enorme. deitei-a à cabeça e saí para a rua – estava entulhado de rumos que tinha amealhado ao longo de um tempo que não era tempo. escolhi um – descalcei os sapatos. queria sentir as pedras que um dia foram frias. caminhei. caminhei. caminhei – tão cansado por nada saber do caminho que escolhi. a trouxa. feita com lucidez empírica. levava todo o entulho que um dia foi relevante – continuei a caminhar. a trouxa. desconfiada. começou a perder consistência – abriu-se. abriu-se. abriu-se sempre mais um pouco – talvez com temor. talvez cansada da viagem – o entulho. que até ao momento era como se fosse uma peça só. começou a cair aos pés que iam descalços – o caminho já não era caminho – nas pedras graníticas cravavam-se as garras de uma trouxa feita em mil bocados. o crânio inchava e os olhos saiam das orbitas – as unhas cresciam. a língua batia num peito fustigado pelas garras que queriam amarrar a vida que por ali ainda batia. o cabelo saltava com o movimento da trouxa e a espuma no canto da boca. dizia que o nojo não terminaria com a raiva que passava entre dentes – o corpo era agora mais pequeno que a trouxa – senti uma mão nas escarpas viradas contra a vida. disse-me – [está na hora da injecção e de voltares para a cama] – [os teus amigos já estão todos a dormir] – [o manicómio encerra as luzes às vinte e duas horas e quero todos os loucos na cama]. [tu és igual a todos os que aqui não estão]. baixei as calças e parti para outra rua. sem entulhos



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