entulhei todo o entulho guardado nos neurónios – fiz
uma trouxa enorme. deitei-a à cabeça e saí para a rua – estava entulhado de caminhos
amealhados ao longo de um tempo que não contou para o meu tempo – escolhi um –
descalcei os sapatos. precisava de sentir as pedras que um dia foram apenas minhas
– caminhei. caminhei. sem saber onde parar – tão cansado por nada saber do
caminho que escolhi. a trouxa. feita com lucidez empírica. levava todo o
entulho que um dia foi relevante – continuei a caminhar – a trouxa.
desconfiada. começou a perder consistência – abriu-se – talvez por temor.
talvez cansada da viagem – o entulho. que até então era uma peça só. começou a
cair aos pés descalços – o caminho deixou de ser caminho – nas pedras centenárias.
cravavam-se as garras de uma trouxa feita em mil bocados: o crânio inchava. e os
olhos perdiam-se das orbitas. as unhas
cresciam. a língua batia num peito ferido por garras que queriam vida. simples.
o cabelo saltava. a trouxa também. e a espuma no canto da boca continuava a afirmar:
o período de nojo ainda não tinha passado – o corpo era agora menor que a
trouxa – senti uma mão tocar-me e
dizer-me: está na hora da injeção contra a raiva. o passado já passou. é hora
de voltares para a cama e descansar – os teus inimigos já estão todos a dormir –
nos autofalantes do manicómio ouviu-se: as luzes apagam-se às vinte e duas horas. quero
todos os loucos na cama – e tu. sim. tu. que está com a trouxa. és igual a
todos os que aqui estão. mas talvez melhor do que muitos que não estão – tirei as
calças. calcei umas sapatilhas de correr e parti para outra rua. sem entulhos
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
17/06/2010
entulhei todo o entulho
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