segunda-feira. o despertador alerta-me para a realidade.
levanto o corpo duma cama que me guarda todos os sonhos. mas a alma. essa. fica
de guarda ao que resta dos meus projetos. mistura-se com a roupa suada das
noites loucas de amor – o sol desponta. as gaivotas planam num tempo que parece
sempre igual. e o mar continua a ir e a vir sem lamentos – ponho a cama de pé.
encosto-a à parede inclinada que sustenta o quadro de um artista desconhecido –
a cadeira. que serve de assento às ideias. guardo-a dentro de um guarda-vestidos
– é valiosa. ali descanso a vontade de escrever – meti-a entre uma camisa
branca e um par de calças pretas. roupa que estimo – um dia. que espero tardio.
com uma gravata preta. farão comigo a viagem eterna – do outro lado. virado para
a janela que espreita o sul. o toucador – tem em cima um espelho baço que suporta
o reflexo de toda as minhas debilidades – um dia perguntei aos amigos se gostariam
de conhecer mais um pouco do outro que mora comigo. não ouviram – creio que não
acreditam que dentro dos olhos se escondem outros olhos – apenas as gaivotas.
minhas amigas de longa data. recordam as noites em que choro. embalam-me com as
suas danças sobre o mar – este espelho. preso ao toucador. comprado numa feira
de diversões a um anão que queria ser grande. é o único a ler as minhas lutas
internas. e em cada lágrima vertida a desilusão de não me ver como deveria ser –
o meu destino e a desilusão são companheiros de viagem – mas hoje encerrarei a caminhada
por um tempo. entrarei para dentro do espelho e ali ficarei. protegido do mundo
e de mim. trabalharei sonetos e prosas. talvez um poema com rima cruzada - mas
não. é segunda-feira. preciso de puxar o cabelo para o meu melhor lado. preciso
de estar bonito. o trabalho é coisa séria e só comporta homens sérios – arranjei-me
o melhor que pude. coloquei-me em frente ao espelho e perguntei-lhe: qual era o
humano mais bonito? respondeu-me: a camisa está um pouco amarrotada. e precisas
de um pouco de after shave. old spice – dizem que traz água do mar. e o barulho das gaivotas sobre um oceano que
também te pertence – no fim. cada um faz o que precisa para sobreviver. também
eu cumprirei o meu papel
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
27/06/2010
segunda-feira
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário