silêncio total. a solenidade resiste. ainda é urna. a
madeira está intacta. encerada. os bronzes polidos. as cordas sedosas. e os
castiçais perfilados – o momento é como imaginei – as feições são brisas. as
palavras misturam-se. ora agradáveis. ora. desprezantes. escuto-as com
dificuldade. fazem doer mesmo um morto – sei que as palavras largadas ao vento
nunca têm destino certo. mas estas tinham. eram para o morto – mutantes. saem
da boca com um sentido. e chegam com outro. algumas assassinam o caráter. mas o
bom. que é amigo do ótimo. é que podem entende o que quiser. para o emissor. elegantes.
para o morto. falsas – ouço-as. algumas melodias. marcha fúnebre de chopin.
outras. talvez hallelujah do leonard
cohen – mas as mais divertidas são as curiosas: afinal do que faleceu?
talvez de desgosto – afinal. morrer não acontece todos os dias. é obrigatório
aproveitar estes momentos. um morto também se pode divertir – coitado. afinal
de que embarcou? também é preciso ter galo – foda-se. logo hoje que está tão mau
tempo. vamos apanhar uma molha – que me importa se vou tapado. quem estiver mal
que espere pelo próximo defunto – mas também há palavras agressivas e hipócritas.
mesmo depois de morto. temos que as ouvir e aguentar para não fazer do nosso
funeral uma batalha campal – nem depois de morto temos sossego – sabem que é a última
oportunidade para magoarem – usam todo o veneno e. sem dó nem piedade. jogam-lhe
no ouvido tudo que não tiveram coragem de dizer cara a cara – depois. sentem-se
bem. desabafaram – eles não sabem. mas já estão mortos há muitos anos. nunca
viveram – afinal. estão cada vez mais perto do que sempre foram. nunca tiveram
vida – de seguida ouve-se os que estão ao lado do falecido: coitado. tão bom
homem. uma perda enorme para quem tão bem o conhecia. como eu. nem sei quem é. mas pelo menos é
simpático. talvez apenas um pouco mentiroso – tenho pena é dos filhos. tão
jovens. éramos muito amigos. vai-me fazer falta – filho de uma gradíssima… mentiroso.
nem próximos éramos – é por esta altura que me arrependo de estar morto. se
soubesse que estes cabrões apareciam. tinha evitado morrer a um fim-de-semana –
esta malta não falta ao trabalho para um funeral. mas ao fim-de-semana não tem
para onde ir – mas também são tantos. que alguns destes cromos iria aparecer –
que se fodam todos – bonito é o alinhamento das campas. perfiladas. todas com
mortos. só o nome é que difere – também gosto das lápides. sempre com saudades
eternas da esposa. filhos. noras. netos e restante família – é na restante
família que torço o nariz. a maior parte deles nem conheço. e não tenho saudades
de conhecer – agora. nada posso fazer. estou deitado nesta caixa retangular – talvez
as medidas não tenham sido bem tiradas. estou apertado e sem ar – até os
sapatos me apertam. espero bem não ter uma bolha – a almofada também é uma
merda. alta e dura. está a dar-me cabo do pescoço – não sei como se esqueceram
de trazer a almofada ortopédica – o pano rendado que me cobre. feito de fibras
sintéticas. faz-me comichão na ponta do nariz – se espirrar a culpa não é minha
– estou com medo. esta gentinha é bem capaz de fazer respiração boca a boca – mas
muitos fugiriam com medo que eu soltasse a língua – não quero voltar à vida – aqui
pelo menos tenho silêncio e tranquilidade – um anjo já me disse que depois das
cerimónias fúnebres levam-me para outra dimensão. não sei é o dito céu. mas se
for para o inferno também vou bem. aquilo está cheio de festas e todos os dias
há sunset virado para a terra – a minha última morada está virada a sul. e tem
um eucalipto por perto a guardar-me sombra – quero o sol pelas costas. estou
farto que me cegue. quero ver o futuro. mesmo que seja debaixo da terra – mas
se tivesse pensado bem. tinha pedido para ser cremado. e já não tinha que
aturar os cromos. era uma cerimónia só para a família chegada – o fogo queimaria
todos os vermes e impostores que carreguei durante o tempo em que estive
pré-morto
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
17/06/2010
antes do pó - prosa
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