quero escrever. mas as mãos estão trémulas. não
sei se é medo de saber que o que tenho para escrever é igual ao dia anterior.
ou porque a arte é reduzida – a diferença é que este dia vem sucede a
segunda-feira. começa com o amanhecer – obrigações deixam-me sempre angustiado
– o dever sempre me aborreceu. deixa na boca um gosto a fel – ainda não percebi
o porquê de gostar de escrever. deve ser um vírus qualquer – ontem respondi a
uma mensagem de uma amiga que me questionava sobre esta mania. respondi que escrevo
para me sentir mais próximo de quem me compreende – esta é a melhor definição
para alguém como eu. estar próximo de quem me entende sem nunca ser parte desse
grupo – por isso escrevo. gosto de escrever. e assim sentir que a minha verdade
pode viajar como bem entender – gosto de sentir em cada adjetivo a verdade da
ocasião – este é o risco de quem escreve o presente com base no passado –
escrevemos sempre o agora – mergulho
em mim e trago para as mãos tudo o que pode interessar aos meus seguidores.
para que possam compreender os meus ‘eus’. aceitando ou rejeitando aquilo que
sou e o peso de cada palavra – vomito-as das minhas angústias para este papel outrora
branco – há dias que estou tão só que apenas quero ver as minhas palavras no
olhar dos outros. acredito que me escutam – é neste desespero que volto para
dentro de mim. tentando encontrar um pouco mais do que escapou. outras vezes apenas
para me esconder do mundo – a dor aqui é muito séria. crua. mas é quando aceito
com custo que as escolhas que fiz ao nascer – alguém tudo cresceu mais rápido
que a camisa que um dia quis vestir – translúcida. fluorescente. com um bolso
enorme de tolerância – rasgou-se pela força da desilusão –– mas a dor
persistia. enrosca-se em mim como o polvo de sinbad. da lenda dos sete mares. e
as noites são lutas intermináveis – nessas noites. a vergonha mata-me. queria
tanto ter força para deixar de sofrer. para rasgar o papel que afinal era uma
carta cheia de desculpas – nessas noites. a dor era tão forte. que todo eu
chorava. não apenas os olhos. mas as entranhas. os ossos. a espinha que me
mantinha curvado. e das mãos desprendiam-se pedaços de carne herdados de uma
família que esperava mais de mim – e eu desfeito. rasgado de cima a baixo.
estripado de tudo que me fazia ser eu. aquele que sempre se entregou ao amor
pelo amor – a noite consumia tudo que eu tinha. para além da própria dor. e. no
meio dela. apenas me restava a força para abrir os olhos com o sol da manhã – como
queria ser feliz. mas parecia-me tudo tão distante – as soluções estavam. além
de uma montanha que eu próprio construi – a última vez que alguém me garantiu
essa não solidão. obrigou-me a levar uma cartilha branca. uma vela de cera
rendada em laço de seda da índia. estava eu de calções de veludo. e com um laço
apertava a camisa de folhos. nos olhos. a esperança de quem acreditava que tudo
fosse verdade
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
27/06/2010
terça-feira
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