.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

27/06/2010

terça-feira









quero escrever mas as mãos estão trémulas. não sei se é o medo de saber que tenho que escrever sobre um dia que afinal é igual ao de ontem – a diferença é que este vem depois da segunda-feira. vem depois do despertar – estas obrigações sempre me mataram – o dever sempre me fez tremer. deixa em mim um gosto ao cumprimento obrigatório – não sei bem o porquê de gostar de escrever. ontem respondi a uma mensagem. dizia que escrevo para me sentir mais perto do mundo que me compreende. esta é a melhor definição para alguém como eu. estar mais perto de quem me entende sem nunca ser um deles – então escrevo. gosto de escrever. e assim sentir mais verdade nas palavras. que é como quem diz. verdade nos meus actos – gosto de me sentir em cada adjectivo. mesmo aqueles que se transformam com o tempo – é este o risco de quem escreve no presente um passado. o futuro quase não há. lemos quase sempre o agora. independentemente de crescermos no meio das palavras que nunca serão outra coisa que não o dia que achamos que as entendemos – saio por mim adentro a correr. e trago tudo o que pode interessar aos meus seguidores que entendem os meus “eus” e que penso existirem por trás de cada palavra que lhes entrego – vomito-as do meio das minhas agonias para este papel que em tempos não muito distante foi branco – há dias que estou tão só que apenas quero ver as minhas palavras no olhar dos outros. acredito que me escutam – é nesta loucura que volto fundo para dentro de mim. tento encontrar-me. mas estou só. descubro apenas aqueles dias em que eu queria partir para lá da minha montanha – acreditava que a dor aqui era mais séria. mais crua. admitia uma escolha que não fiz ao meu nascer. tudo cresceu mais rápido que a camisa que um dia quis vestir limpa. florida e com um bolso enorme de tolerância. rasgou-se pela força da desilusão – queria encontrar as promessas que me fizeram nascer a sorrir. descobrir um céu novo que me garantisse que seria apenas mais um neste mundo de muitos “uns” – mas a dor persistia. enroscava-se em mim como o polvo de Sinbad da lenda dos sete mares. e as noites eram lutas intermináveis – nessas noites. a vergonha matava-me. queria tanto ter força para deixar de sofrer. para rasgar o papel que afinal era uma carta cheia de desculpas – nessas noites. a dor era tão forte tão forte. que todo eu chorava. não apenas os olhos. mas as entranhas. os ossos. o olhar. a espinha que ainda me mantinha curvado. e das mãos caiam pedaços da carne que herdei de uma família que queria muito mais de mim. e eu. desfeito. rasgado de cima a baixo. estripado de tudo que me fazia ser eu. aquele. que sempre se entregou ao amor pelo amor – a noite. consumia tudo que eu tinha para além da própria dor. e de dentro desta. apenas me restava a força para abrir os olhos com o sol da manhã – como eu queria ser feliz. mas parecia-me tudo tão distantes – as soluções. essas. estavam para lá de uma montanha que eu próprio construí – queria tanto ser genuíno que não fui suficientemente flexível para ouvir as vozes discordantes – agora. alguém me diz que vou ficar só. como se alguma vez estivesse acompanhado – a última vez que alguém me garantiu essa não solidão. obrigou-me a levar uma cartilha branca. uma vela de cera rendada em laço de seda da índia. estava eu de calções de veludo. e com um laço apertava a camisa de folhos. nos olhos, a esperança de quem acreditava que tudo fosse verdade.



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